segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

O CASO ANGOCHE E O MISTÉRIO DOS ARQUIVOS


CASO ANGOCHE - O 'NAVIO FANTASMA'. - ou mais uma 'operação suja' das NF em Moçambique em 23 de Abril de 1971?
Mais fotos inéditas. E... O MISTÉRIO DOS ARQUIVOS!
Haviam desaparecido arquivos da PIDE, aliás, já era DGS, respeitantes ao caso. Através desta investigação acabamos por saber de mais arquivos do regime. Sabiam que em S. Bento, na cave da residência oficial do 1º ministro havia um 'Arquivo do Gabinete' para o qual remetiam algumas das fichas do chamado ficheiro rotativo (umas 150.000 fichas)? Este 'Arquivo do Gabinete' também chamado 'Arquivo Confidencial' ou 'Arquivo da Caixa Forte' distinguia-se de um outro, o 'Arquivo Geral'(... )













quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

OPERAÇÃO ANGOCHE - UMA 'OPERAÇÃO CONDOR' À PORTUGUESA

OPERAÇÃO ANGOCHE - UMA 'OPERAÇÃO CONDOR' À PORTUGUESA
O CASO ANGOCHE foi uma das 'operações sujas' das NF (das 'nossas forças') em Moçambique. E agora?

Em 23 de Abril de 1971 desapareceu ao largo de Moçambique toda a tripulação de 23 homens do navio Angoche e um passageiro.

O navio foi encontrado 3 dias mais tarde à deriva e parcialmente incendiado.
Ao longo dos anos esperou-se em vão por um sinal, por corpos ou sobreviventes. Sem resultado.

Hoje, compilados todos os factos e últimos testemunhos que recebemos para este dossier, verifica-se:

As muitas teorias foram espalhadas pelos próprios autores para baralhar pistas e apontar um inimigo externo, 'submarino vermelho ou amarelo', ou um campo de prisioneiros na Tanzânia, em Nachingweia ou Kiloa - vertente que esteve a cargo da família moçambicana Murupa (Miguel e Marcolino) ligada a Jorge Jardim, etc., etc. 

Nessa mesma campanha demonizaram-se até à exaustão nomes como Rosa Coutinho e Victor Crespo. Jorge Jardim e o seu homem de mão, Orlando Cristina, inventaram até histórias de perseguição feitas pelo Orlando ao grupo que levava os prisioneiros a caminho da Tanzânia.

Há ainda que descartar histórias de megalómanos que sabem sempre tudo, e outros que deturpam até inocentemente os factos. Uma moça que é atirada de um 5º andar, vivendo factualmente no apartamento 55, portuguesa, não é a mesma coisa de 'uma moça moçambicana da força aérea' atirada de um 7º andar! Não é só a troca de andares mas dá para aquilatar como surgem versões. Uma queda-livre forçada não torna automaticamente ninguém da força aérea. Isto só para denotar alguma da palha que foi enchendo o processo Angoche.

No final, custa-nos a admitir mas esta é a verdade: A OPERAÇÃO ANGOCHE foi uma operação não do IN (do Inimigo) mas das NF (das nossas 'próprias forças')

Marcello Caetano quando lhe contaram a verdade mostrou-se deveras envergonhado. A parte referente a terem sido devorados por tubarões será verídica mas não teve coragem para explicar as circunstâncias em que ocorreu, já longe do local em que o navio foi abordado.

O 'caso Angoche' foi de facto um contra-golpe para fazer abortar um golpe por parte de gente da ala esquerda das forças armadas, da ARA/PCP muito possivelmente, e que podia ser até do conhecimento das figuras sempre apontadas como os 'suspeitos do costume' - Crespo, Coutinho, etc. 

A única vítima desse sector de esquerda foi a 'suicidada' Olívia Mestre, a do 'miramortos' da Beira, infiltrada pela PIDE e afins, no seio do núcleo esquerdista. A sua morte foi apenas uma eliminação da agente delatora. A moça estava a ser controlada por um 'patriota' comandante de corveta, alternava em clubes nocturnos da Beira, mas pescada meses antes para essa missão, pela PIDE em Lisboa, onde era dactilógrafa no Ministério do Ultramar.

Na OPERAÇÃO ANGOCHE que dizimou toda a tripulação, já fora do navio, estiveram envolvidas forças 'patrióticas', elementos militares portugueses e forças ligadas ao empresário e 'agente secreto' Jorge Jardim, e ao seu SEII. Não se pode ainda ignorar a inserção já em 1971 da Marinha e Força Aérea portuguesas no 'exercício ALCORA' que uniu ao tempo, secretamente, as forças armadas de Moçambique, África do Sul e Rodésia. 

Pelo menos um dos oficiais superiores da Marinha ligado ao caso ANGOCHE e 'Miramortos', o que manipulava a agente infiltrada, esteve plenamente envolvido no 'exercício ALCORA' nessa altura. E já antes estivera nas forças navais no Lago Niassa, num projecto muito com o cunho pessoal e iniciativa do engº Jorge Jardim.

Não menos importante neste lapso espaço-temporal, a par do 'exército privado' de Jorge Jardim, do seu SEII, e do respectivo saco azul, há a presença de um corpo especializado da AGINTER-PRESS, agentes que deixavam os rapazes da PIDE a muitas milhas de distância. A AGINTER-PRESS aglutinava gente portuguesa e estrangeira, mercenários, torcionários, especialistas em informação, incluindo ex-elementos franceses da guerra da Argélia, da hierarquia da OAS. 

A AGINTER-PRESS acaba por ser a faceta portuguesa da Operação Gládio, que envolve desde o fim da 2ª guerra mundial vários países da Europa e não só, constituindo um exército 'stay behind', para actuar na sombra, como guerrilha, se uma vez esta Europa fosse tomada pelas tropas soviéticas. Na América do Sul a antena local da GLÁDIO ficou bem conhecida e tristemente célebre sob o nome de 'Operação CONDOR. 

E foi um fim com a matriz 'Operação Condor' aquele que de acordo com um dos nossos testemunhos, a facção 'patriota' das NF, das nossas forças militares, infligiu à tripulação do Angoche, obstando a um golpe esquerdista que estaria a ser preparado no tipo do que ocorreu no Santa Maria.

Obviamente que Marcello Caetano terá ficado envergonhado. Mas decerto manteve-se cobarde, ele e todos os que lhe seguiram, não se atreveram a denunciar explicitamente o que aconteceu. Até hoje. 

Funcionou, quatro décadas e meia, todo este manto de secretismo e o labirinto de pistas falsas que os autores da Operação Angoche diligenciaram plantar. 


QUEM ASSASSINOU? QUEM MANDOU? QUEM OCULTOU?

QUEM PERMITIU o uso de meios humanos e logísticos das 'NF' militares e para-militares neste massacre?

EM BREVE TORNAREMOS PÚBLICO UM TESTEMUNHO VITAL SOBRE O DOSSIER

As vítimas da OPERAÇÃO ANGOCHE:

=== PORTUGUESES ===
ADOLFO BERNARDINO - COMANDANTE 
JOAO ANTONIO TAVARES - IMEDIATO 
JOSE MANUEL ESTRELA - CONTRAMESTRE 
ANTONIO FRANCISCO SARDO - 1º MAQUINISTA
JOÃO FERREIRA PASCOAL - 2º MAQUINISTA
FLORIANO MATIAS - 3º MAQUINISTA
RAUL TORMENTA DA SILVA - TELEGRAFISTA
JOSE GONÇALVES COELHO - ELECTRICISTA 
MANUEL PEREIRA - COZINHEIRO
CARLOS DA SILVA SOARES - PADEIRO
FRANCISCO PINHEIRO LOURENÇO - DESPENSEIRO 
PASSAGEIRO: JOSÉ PEDRO

=== MOÇAMBICANOS ===
ALFANDEGA MANDAL - MARINHEIRO  
BANGEIRO COPENSE - AJUDANTE DE COZINHEIRO 
COSTA CURUZE - CRIADO 
CUNHA SACA - CRIADO
GUIMARAES CHUQUELA - MARINHEIRO
JOAO PICALOGUE - CRIADO
JOSE CHIMU - MARINHEIRO 
JOSE CORRENTE - CRIADO
LUCAS JOAQUIM - MARINHEIRO
SANDACA SAMAJO - LUBRIFICADOR 
TEODORO EMILIANO - LUBRIFICADOR 
VICENTE ARMANDO - LUBRIFICADOR


sexta-feira, 9 de setembro de 2016

O que aconteceu naquela noite no Angoche? Quem são os responsáveis pelo desaparecimento da tripulação?

Há 45 anos, na noite de 23 de Abril, estes homens e outros 15 desapareceram, para sempre. Até hoje não há rasto, vivos ou mortos, ou quantos dias duraram e onde. Porque recaiu sobre eles esata 'operação secreta' que ninguém assume. E ninguém assumiu, ou assume, porquê?
Temos que 'recolher os búzios' e voltar a lançá-los, e reinterpretar tudo... tem havido muita areia no ar, gente há décadas a manipular, a fazer-nos olhar na direcção errada. Vamos lançar outra vez os búzios, e abrir bem os olhos, olhar para ver!
Então, talvez tudo se ajuste...

segunda-feira, 27 de junho de 2016

«Eu ouvi a explosão a bordo do Angoche»

Fomos repetidamente procurados pelo sr. Carlos Augusto Torres, de 72 anos, retornado de Moçambique, onde viveu grande parte da sua vida. Primeiro, como caçador profissional; depois, como industrial de pesca, ou, mais simplesmente, como pescador. Nesta sua segunda actividade africana, residia numa casa isolada, na Ponta Serissa, no extremo norte da Baía de Almeida, situada a sul da foz do rio Lúrio: na costa de Moçambique, entre Nacala e Porto Amélia. Procurou-nos para nos dizer: 
— Eu ouvi a explosão a bordo do «Angoche»! 
— Ouviu a explosão? 
— Sim senhor! Ouvi um grande estrondo no mar, estava eu na cama, antes de adormecer, seriam 10 ou 11 horas; e na manhã seguinte o meu pessoal disse-me que também tinha ouvido aquele estrondo, e que tinha visto fogo no mar. Era com certeza um navio a arder. Pelas notícias que se conheceram depois, não podia ser outro senão o «Angoche». Na altura em que se deu a explosão a bordo, o navio acabava de navegar para norte do Farolim de Chaonde, antigo posto administrativo do mesmo nome, que fica na extremidade sul da Baía de Almeida, a uns 16 ou 17 quilómetros distante da minha casa. Ali, o navio seguia sempre a um máximo de 3 a 4 milhas da costa, e aí é que deve ter sido abordado pelo barco-pirata, que terá obrigado a tripulação do «Angoche» a deitar certa carga ao mar, e depois os raptou a todos... 
— Porque diz que o «Angoche» ia a 3 milhas da costa? 
— Porque era a rota daqueles navios, naquele lugar. 
— Quer dizer que ouviu a explosão que aconteceu a uns quinze quilómetros da sua casa? 
— Sim senhor. Ouvi eu e ouviram os pretos que trabalhavam comigo. E eles até viram as chamas do incêndio, a bordo. Seriam umas dez ou onze horas da noite de 23 de Abril, quando eu ouvi a explosão. 
— Diga-me uma coisa: se o navio tivesse aproado ao largo, digamos, rumo a nordeste, de modo a que estivesse sensivelmente à mesma distância da sua casa, teria ouvido também a explosão? 
— Com certeza. Mas os navios como o «Angoche» navegavam sempre perto da costa, naquele lugar. Nunca iam para o largo. 
— E numa noite com boa visibilidade, até que distância é que os seus homens poderiam avistar as chamas de um navio com fogo a bordo? 
— Até umas vinte milhas, talvez. Mas os navios, ali, navegavam sempre junto à costa. 
— Acha então, que o ataque ao «Angoche» se deu tão perto da costa? 
— Com certeza! 
— Porquê? 
— Porque era a rota deles! 
— Era perigoso navegar para o largo? 
— Não era perigoso, mas iam sempre perto da costa, para aproveitarem a corrente. 
— E há muitos tubarões naquela área? 
— Pesquei lá durante vinte e quatro anos, e só uma vez apanhei um tubarão nas redes. Os meus homens, e eu mesmo, quando era mais novo, atirámo-nos muita vez ao mar para desembaraçar as redes, e fazíamos isso sem qualquer receio. Qual tubarões, qual nada! A tripulação foi raptada e levada não sei para onde. 
— E quem acha o senhor que poderia ter feito isso? 
— Bem, não sei... Mas a tropa nunca quis falar do caso. 
— A tropa? 
— Sim. A minha casa da Ponta Serissa estava isolada e eu recebia lá muitos oficiais e soldados. Muitas vezes. Iam lá comer lagosta e camarão e caldeiradas, e eu gostava de os obsequiar: era a nossa tropa, que estava a combater por nós, e eu tinha muito gosto de a receber o melhor que podia. Mas sempre que lhes falei do caso do «Angoche», todos desviaram a conversa e diziam que o assunto não era com eles: «Esse problema não é nosso» — era o que diziam os oficiais. 
— E o senhor foi interrogado nalgum inquérito? — A mim nunca ninguém me perguntou nada. Mas ai por volta de 1975, deu à costa no farolim do Chaonde uma caixa de granadas, e, algum tempo depois, apareceu uma barrica de 100 quilos de alcatrão em bom estado, sem verter nem nada. Com certeza que era carga do «Angoche». 
— Mas uma caixa de granadas é mais pesada que a água: devia ter ido para o fundo. 
— Pois foi para o fundo, mas há naquele mar correntes submarinas muito fortes, que empurram tudo para terra! 
— A propósito de correntes: se o navio estava perto de terra quando ficou à deriva, como é que apareceu lá tanto para sul, na rota do petroleiro que o encontrou? 
— Bem, eu não sei quando é que ele ficou à deriva. O que eu sei é que a nossa tropa — alguns oficiais — já há muito tempo queriam entregar Moçambique aos «turras». Um dia, um soldado até me perguntou se eu sabia de quem é que tinha vindo a ordem para a nossa tropa não disparar contra os «turras». Eu não sabia, e disse-lhe que não sabia. E sabe o senhor uma coisa? Olhe que quando os nossos soldados perceberam que íamos ficar sem Moçambique, que íamos entregar Moçambique, houve alguns que até choraram de raiva: não sabiam explicar o que sentiam, mas sentiam! Então eram portugueses. 
— E porque é que nunca se soube exactamente o que aconteceu ao «Angoche»? 
— Ora, porquê?!... Pois se eles estão aí por toda a parte; se eles é que estão a mandar! Como é que vinham contar à gente aquilo que fizeram ao navio e à tripulação!? 
— Bem... Vamos utilizar parte do que nos contou, mas queremos saber se pretende guardar o anonimato, ou.. 
— Anonimato? Não, senhor! Quero que ponha lá o meu nome. Tenho 72 anos, já perdi um olho, e ninguém me (lá trabalho. Até se riem, quando eu digo que quero trabalhai', Mas tudo o que eu afirmo é verdade. Fiquei sem nada, ao fim duma vida inteira de trabalho, e os últimos 24 anos passei-o§ a pescar na Ponta Serissa. Estou farto de passar miséria, desde que voltei à Metrópole, em 1976! Para sete pessoas, recebo dois contos e trezentos por mês! Mas tudo o que eu digo é verdade! Olhe, veja o senhor se consegue falar com Pedro dos Santos, que parece que está agora numa pensão de retornados, no Cacém, e que, lá em Moçambique, morava um pouco para o norte da minha casa, na Baía de Matacaua, logo abaixo da foz do rio Lúrio. Veja se consegue falar com ele, e verá se eu não digo a verdade. 


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Pedro dos Santos, outro pescador de Moçambique: 
«Ali não havia tubarões: em 22 anos nunca vi nenhum...» 
No nosso número de 14 de Março último, publicámos as declarações do pescador Carlos Augusto Torres, que nos disse ter ouvido a explosão a bordo do «Angoche», e nos garantiu, pela sua experiência de ter pescado diariamente naquelas águas durante vinte e quatro anos, que ali não havia tubarões. 
A finalizar as suas palavras, recomendou-nos que contactássemos com um seu vizinho em Moçambique, também pescador, chamado Pedro dos Santos. 
No final desse artigo pedíamos ao sr. Pedro dos Santos que nos procurasse — o que finalmente aconteceu apenas esta semana, por ter estado doente, segundo teve a amabilidade de nos dizer. 
Pedro dos Santos é outro pescador português de Moçambique — mais exactamente: outro ex-pescador português de Moçambique, que viveu vinte e dois anos na baía de Metacaua, logo ao sul da foz do rio Lúrio, e imediatamente a norte da ponta Serissa, onde vivia o seu colega Torres. A casa em que ali viveu foi toda construída pelas suas próprias mãos, e encontrava-se num recanto da baía, abrigada dos ventos do mar por uma língua de terra. 
Amavelmente, prestou-nos as informações necessárias para melhorarmos o croquis daquela região costeira que tínhamos publicado, a acompanhar as declarações do seu amigo Torres. E disse-nos: 
— Naquela noite, um pouco depois das 11 horas, ouvi um estrondo enorme no alto mar. Dias depois, quando houve aquelas notícias do «Angoche», fiquei sem qualquer dúvida de que o estrondo que ouvi nessa noite foi o da explosão ocorrida a bordo daquele navio. Na manhã seguinte, os pretos perguntaram-me se eu também tinha ouvido o ruído, e disseram-me que tinham visto fogo a arder no alto mar. 
— Mas aqueles navios não costumavam navegar muito próximo da costa? 
— Costumavam, sim senhor. Nós, em casa, até ouvíamos distintamente o ruído das máquinas. Mas, nessa noite, só se ouviu a explosão, o que quer dizer que o barco iria fora da sua rota normal, navegando mais ao largo. Porque eu ainda estava acordado, e antes da explosão não tinha escutado o ruído das máquinas, como era habitual escutar. Não fui logo para a beira da água, para verificar se veria alguma coisa, porque a minha casa estava num recanto da baía e tinha uma língua de terra entre mim e o oceano: teria de andar a pé um grande estirão. Bastantes dias depois, o chefe do posto, Anselmo Évora, perguntou-me o que eu sabia, e se alguma coisa dera à costa. Mas, passado mais de um mês, deu à costa um par de botas de borracha, daquelas que os embarcadiços usam para lavar o convés dos navios. Tive-as ali alguns dias, e depois desapareceram. Deviam ser do tripulante que mataram e eles deitaram ao mar. 
Aproveitamos a pausa para o assunto fundamental desta conversa: 
— E a respeito de tubarões naquele mar? 
Pedro dos Santos sorri, e diz com naturalidade: 
— O meu vizinho da ponta Serissa já lhe disse que em 24 anos, apenas uma vez viu um tubarão. Eu, com 22 anos de trabalho diário naquele mar, nunca vi nenhum tubarão, nem soube que alguém os tivesse visto por ali. O fundo, naquelas paragens, tem muitos bancos de coral e, por isso, as redes prendiam-se com frequência: tanto eu como os homens que trabalhavam comigo, sempre nos deitamos ao mar sem qualquer apreensão, para desembaraçarmos as redes. Ali não há tubarões. E mesmo que pudesse aparecer um ou outro, nunca seriam em quantidade suficiente para devorarem 24 homens. 
— Em sua opinião, o que aconteceu ao «Angoche»? 
— Com certeza que raptaram a tripulação. Os russos, ou chineses, navio de superfície ou talvez submarino, mas devem ter levado todos os homens da tripulação... 
E, depois de acender um cigarro, continuou: 
— A guerra estava a tomar uns aspectos muito feios, ali para o norte de Moçambique. Algum tempo antes do que aconteceu ao «Angoche», tinha sucedido a mesma coisa a um pescador negro, que era pai de um dos homens que trabalhavam comigo... 
— A mesma coisa? 
— Bem, quase a mesma coisa. Se não destruíram o barco dele, foi porque se tratava de uma canoa que não interessava a ninguém, a não ser a um pescador. Mas eu conto: uma bela tarde, o pai desse meu pescador saiu para o mar na sua pequena canoa, apetrechado para a pesca que contava fazer, como de costume. E aconteceu que, no dia seguinte, o barco dele varou da praia, com todas as coisas lá dentro: os anzóis, a cana, o isco, a âncora, e até a comida que ele levava consigo... Tudo estava em perfeita ordem, a bordo daquela pequena canoa de pesca; mas o pescador é que faltava... e nunca mais apareceu. Ora, pelo aspecto das coisas que estavam na canoa, não podia ter acontecido nenhum desastre que fizesse o pescador ter caído ao mar; e se isso tivesse acontecido, ele voltaria para o seu barco. A opinião geral, incluindo a do seu filho, foi que eles o levaram... 
— Eles quem?... E para quê? 
— Bem... Eles queriam informações sobre os nossos territórios, e coisas assim. A verdade é que o pai do meu pescador desapareceu sem deixar rasto, e nunca mais tivemos notícias dele. Mas a sua canoa deu à costa com tudo em ordem a bordo. 
E aqui findou o depoimento deste outro pescador português de Moçambique, que confirma totalmente o de Pedro dos Santos. Ambos são peremptórios: naquela, região, seria impossível que os tubarões tivessem devorado vinte e tal homens do «Angoche». 

sexta-feira, 24 de junho de 2016

"Operação Angoche OK! Radio-telegrafista morto!" - Vida Mundial, 23 de Dezembro de 1976


"Angoche" - 5 anos  depois 

À ESPERA DA VERDADE 

Do dia 17 de Outubro de 1974 ficaram, para os familiares dos tripulantes do "Angoche", os resíduos das promessas não cumpridas. Dos dias, semanas, meses que se lhes seguiram restam, bem vincados nos seus rostos, o desespero, o cansaço das corridas aos ministérios, a fadiga da espera, horas a fio, frente a São Bento. Ontem aguardando Vasco Gonçalves. Hoje aguardando Mário Soares. Amanhã aguardando outro qualquer. Sempre aguardando novas de outras terras. 

Ontem como hoje quase exilados no seu país. Quase tratados como bichos raros oriundos não se sabe donde, com problemas estranhos a Portugal. 


"NÃO ACREDITAMOS!" 

Frente a nós três mulheres. Às quais nada conseguirá jamais disfarçar o sofrimento destes anos. 

Ana Maria Bernardino: mulher do comandante do "Angoche", Adolfo Bernardino. 

Alda Sardo: mulher do primeiro-oficial de máquinas, António Francisco Sardo.
A mãe de Ana Maria. A idade já avançada não lhe retirou a vitalidade para esperar o regresso do genro. 

"As versões oficiais são falsas. Todos eles mentem quando abrem a boca para falar do "Angoche". Como podemos acreditar na versão que diz que eles foram comidos pelos tubarões? " 

Na voz de Ana Maria Bernardino reside, bem vincada, a certeza de que o marido está vivo. Nada lhe prova, aliás, que ele morreu. 

"Tanto que nós corremos nestes 5 anos, desde Lourenço Marques até hoje, em Lisboa. Todos nos têm mentido. Desde a PIDE em Lourenço Marques até aos Governos sucessivos em Lisboa." 

Alda Sardo conta-nos, quase até ao mínimo pormenor, as diligências que têm efectuado com o fim de conseguir uma resposta. Que lhes diga a verdade. 

"Nunca notei qualquer inimizade do meu marido para com os outros membros da tripulação. Quando muito poderia haver aqueles aborrecimentos passageiros, naturais em quem convive no dia-a-dia. Mas não inimizade." 


LISBOA: QUE FIZERAM OS GOVERNOS?

Nos nossos números anteriores relatámos alguns dos aspectos que nos pareceram merecer maior realce, no que respeita às diligências efectuadas por membros do Governo, com vista a detectar os tripulantes do "Angoche". Diligências não muito claras a avaliar pelo teor dos documentos que publicámos, em especial o emitido após a Conferência de Lusaca. Até que Vasco Gonçalves surge na cena política. 

Em Fevereiro de 1975 os familiares dos tripulantes do navio levam a efeito uma manifestação junto ao palácio de São Bento, insistindo em que uma delegação sua se avistasse como Primeiro-ministro Vasco Gonçalves. Este recusa-se a recebê-los. 

Algum tempo depois é empossada a Comissão de Inquérito para o caso "Angoche", com a seguinte constituição: Paiva de Andrade (oficial da Marinha de Guerra); Comandante Bessa (oficial da Marinha Mercante); António Fernandes Matos (Polícia Judiciária); Salgadinho (escrivão do Tribunal); dr. Grainha Durval (Ministério dos Negócios Estrangeiros); Jorge (delegado dos familiares). Desta comissão apenas há a dizer que nasceu já morta. Pouco tempo depois de ter tomado posse já a sua composição tinha sido alterada: Paiva de Andrade foi substituído pelo oficial da Marinha de Guerra, Rogério Guerra. Das investigações nunca se soube nada de concreto. Com o decorrer do tempo a comissão desapareceu sem deixar qualquer rasto. 

"Aquela comissão foi a maior das vergonhas. Andaram a brincar connosco", disse-nos Alda Sardo. A dita comissão, aliás, embora estivesse prometida desde Fevereiro, só tomou posse após a data da independência de Moçambique. Para o Governo não existia pressa. Tudo se fazia muito calmamente. Como se de um caso de pura rotina se tratasse. 


UM FUTURO POUCO CLARO 

Entretanto, o almirante Pinheiro de Azevedo promete reestruturar a Comissão de Inquérito. O que, efectivamente nunca veio a acontecer com carácter definitivo. 

"A V Divisão chegou a enviar a capa do processo, dizendo que era a única coisa que tinham sobre o "Angoche". E disseram isso quando eu já tinha visto o processo", continua Alda Sardo. 

E sucediam-se os Governos. Sem que nada se aclarasse. O próprio dr. Mário Soares se recusou, ultimamente, a recebê-los, prometendo contudo que uma nova Comissão de Inquérito começará a funcionar dentro de poucos dias. 

"Lembro-me de, ainda estava em Lourenço Marques, ter sabido da existência de telefonemas para a CNN ameaçando um assalto ao navio tal como veio a acontecer. Depois do "Angoche" as ameaças repetiam-se em relação ao "Chinde", cujo comandante se recusou a zarpar de Lourenço Marques." 

Do navio "Angoche" sabe-se ser, para alguns, assunto encerrado. Para outros, algo que quase não começou. 

Para a sogra do comandante ("fui eu quem recebeu a notícia, sozinha em casa") nada foi ainda feito. Tal como para a maioria dos familiares. 

Para nós, fica-nos a incerteza do futuro dos tripulantes e dos que, em Portugal, os aguardam. 

Laconicamente, uma mensagem captada por um navio na data do assalto:

 "OPERAÇÃO ANGOCHE O.K. RÁDIO-TELEGRAFISTA MORTO.". 

H.G.