sexta-feira, 24 de junho de 2016

O CASO ANGOCHE - revista Vida Mundial, 09 de Dezembro de 1976


"Angoche", 5 anos depois 

"Angoche". Navio da CNN com 80 metros de comprimento e cerca de 3200 toneladas. Era um cargueiro que assegurava as ligações entre vários portos da costa de Moçambique. 

No dia 23 de Abril de 1971 abandonou o porto de Nacala com destino a Porto Amélia. A carga era constituída por armamento destinado às Forças Armadas portuguesas que actuavam naquele território. Vinte e três tripulantes e um passageiro a bordo. 

Na madrugada do dia 24, a chegada do barco não se verifica. As comunicações já tinham deixado de existir. O armador alerta as autoridades que, contudo, só iniciam as buscas a 26 sem qualquer resultado positivo. No dia 27, a República da África do Sul contacta Moçambique, informando que o "Angoche" seguia a caminho de Durban, rebocado pelo petroleiro "Esso-Port Dickson", pertencente a uma companhia inglesa mas navegando sob a bandeira do Panamá. Aqui começam a surgir as perguntas. Porque é que o petroleiro não contactou as autoridades portuguesas? Porque é que, quando acabou por o fazer, forneceu indicações de posição continuamente alteradas?

No dia 3 de Maio, navios da Marinha de guerra portuguesa dirigem-se para o local onde se encontra o navio, depois de este ter sido sobrevoado e fotografado pela reportagem do jornal "Notícias da Beira". Interceptado entre Vilanculos e Inhambane, o comandante do "Esso-Port Dickson" escusa-se a dar explicações pela sua atitude. De concreto, apenas que nenhum dos tripulantes fora encontrado. O "Angoche" era um navio-fantasma. Segundo a versão do comandante do "Esso-Port Dickson". 

OS LACÓNICOS COMUNICADOS 
A partir de 27 de Abril os comunicados das autoridades sucedem-se sem que, contudo, algo seja adiantado em relação à sorte dos tripulantes e do passageiro desaparecidos. As notícias nos jornais nada adiantavam, entrando, não raras vezes, em contradição. Em 6 de Maio, o "Diário de Notícias" afirmava, citando Rádio Pequim, que o barco teria sido abordado por um submarino e a sua tripulação obrigada ,a abandoná-lo. No dia 8 do mesmo mês aquele jornal referia a rádio sul-africana para afirmar que os tripulantes do "Angoche" se encontravam detidos na Tanzânia. A 21 desse mesmo mês, e ainda o "Diário de Notícias", referia uma conferência de Imprensa da Secretaria de Estado da Informação e Turismo, na qual se afirmava que estava totalmente posta de parte a hipótese de abordagem e rapto. 

FRELIMO DECLINA RESPONSABILIDADES 
Entretanto, em Dar-Es-Salam, capital da. Tanzânia, Joaquim Chissano 'declarava não dispor de informações que lhe permitissem avaliar claramente a situação. 

Mais tarde, a FRELIMO afirmaria nada ter a ver com o assunto, admitindo no entanto que, no caso de a tripulação ter sido capturada por guerrilheiros, isso teria de ser considerado como um legítimo acto de guerra. Com tudo isto, a incerteza quanto ao destino da tripulação aumentava. Tanto mais que as versões eram distintas. 

Enquanto uns diziam que todos teriam sido devorados pelos tubarões — versão da PIDE em Lourenço Marques mais tarde retomada por Vítor Crespo outros afirmavam que se encontravam vivos e prisioneiros na Tanzânia. Porém, nada de concreto era dito. As famílias recusavam-se a aceitar a versão que dava os tripulantes como mortos. 

Na verdade, não é ao primeiro susto que homens com mais de uma dezena de anos de mar, se lançam à água sem tão-pouco levarem consigo os cintos de salvação. 

Mas era esta a versão, senão oficial, pelo menos oficiosa. O certo é que ninguém reivindicava a autoria da acção que, a ter sido efectuada pela FRELIMO, lhe daria até uma boa publicidade quanto à sua capacidade de intercepção dos meios de abastecimento das tropas portuguesas situadas no Norte de Moçambique. 

ATITUDES ESTRANHAS E ESTRANHAS CONTRADIÇÕES, 
Nesse tempo frequentava o colégio marista em Lourenço Marques (actualmente Maputo) o filho do primeiro-oficial de máquinas do "Angoche", António Francisco Sardo. Era uma criança com 7 anos que ainda se não apercebera de nada do que se estava a passar. 

Logo a seguir aos acontecimentos, isto é, ao detectar do navio por parte das autoridades portuguesas, um capitão-tenente da Marinha surge no colégio pretendendo avistar-se com o filho de António Sardo para lhe comunicar que o pai se encontrava bem. 

Porque o quis fazer junto do filho e não da mãe é algo que nunca foi esclarecido. Algo havia, porém, de concreto: António Francisco Sardo, na véspera do início da viagem, teve um ataque de choro em casa, facto que, segundo relato da sua mulher, acontecia pela primeira vez. Afinal aquela era uma viagem como dezenas de outras, pensava-se. No final, veio a verificar-se ser diferente. Porquê o ataque de choro? 

Por quê a tentativa desesperada do terceiro-maquinista em evitar o seu embarque? ' Mas não ficavam por aí as interrogações. 

O professor Trepa Torres, do colégio marista de Lourenço Marques, radioamador de longa data, dirigiu-se a casa de Alda Sardo, mulher do primeiro-oficial de máquinas do "Angoche", no dia 8 de Maio de 1971, noticiando-lhe que acabava de captar no seu rádio a notícia da chegada da tripulação do navio ao quartel-general de Dar-es-Salam. 

Anos depois, tendo sido chamado a Lisboa para depor perante a Comissão de Inquérito formada para o estudo do caso "Angoche", o mesmo indivíduo 'negou tudo o que tinha dito naquela altura e, inclusive, afirmou não conhecer a mulher a quem tinha dado a notícia citada, quando posto perante ela. 

Além disto, ainda em Lourenço Marques, um inspector da PIDE declarou a Alda Sardo que as investigações tinham, praticamente, terminado tendo-se concluído que: 
1. Uma bomba de relógio tinha sido colocada no navio, quando este se encontrava ainda acostado ao porto de Nacala; 
2. Que, na mesma altura, fora cortada a antena, impedindo assim as comunicações; 
3. Que ao rebentar a bomba os sobreviventes se tinham lançado ao mar. Quanto a isto, pelo menos um facto há que deita por terra a argumentação utilizada: o "Angoche" fez a sua última comunicação com terra, cerca de duas horas após ter zarpado de Nacala, o que não poderia ter feito com a antena já cortada. 

Por outro lado, e a derrubar o terceiro dos argumentos, existe uma mensagem da delegação da Direcção de Segurança do Estado para a de legação da representação da Segurança do Estado em Durban, cujo texto é o seguinte: 

"Qual a data e a altura em, que o navio português foi visto pela primeira vez e qual a data e o momento exacto em que alcançou o "Angoche"? 

Resposta: Pelo que se conseguiu averiguar, o capitão Aquini observou o' "Angoche" por volta das 7 horas no dia 26 de Abril de 1971. Recebeu membros da tripulação a bordo às 9.18 horas aproximadamente e rebocou-o cerca das 10 horas." 

Uma outra mensagem dizia o seguinte: 
"ESSO-PORT DICKSON-DURAN 
RADIO COTTO DURBAN 

Recolhidos dois portugueses navio motor Angoche abandonado pela tripulação prosseguindo a velocidade reduzida, informa ETA Durban mais tarde. 
a) Aquini".

Há uma evidente contradição entre estas duas mensagens. Enquanto a primeira refere ter sido a tripulação recolhida a bordo, a segunda afirma que o navio foi encontrado abandonado. 


QUEM ACREDITA NA MORTE DOS TRIPULANTES? 
Na verdade, e a mais de cinco anos de distância do eclodir do acontecimento, nenhuma das pessoas ligadas, directa ou indirectamente, ao caso "Angoche" admite a morte dos tripu-lantes, a começar pelos próprios familiares. A reforçar esta opinião existe um depoimento de um elemento há pouco tempo regressado de Moçambique, e actualmente a residir algures no Norte do País, depoimento esse que passa-mos a transcrever: 

"Fui preso no dia 28-10-74. Dez dias depois de ser preso fui transferido para o campo de recuperação de Nachingueia. Após a independência fui transferido de Nachingueia para o Norte de Moçambique, para Porto Amélia. Quando fui transferido foram-no todos os pretos, mas ao chegar a Lichinga (antiga Porto Amélia) ficámos divididos em dois grupos: os políticos separados dos não políticos mas continuando o cozinheiro do "Angoche" junto comigo, presumindo-se que ele também fosse considerado político (...) Nos fins de Junho ou princípios de Julho de 1976 fui transferido de Lichinga para a Beira. Ao chegar à Beira, por estar a fuga preparada, fugi do aeroporto tendo um automóvel à espera que me conduziu a casa de um branco amigo onde permaneci durante três meses. 

Ao fim deste tempo, ao passar na Beira o "Nova Sofala" da CNN, consegui embarcar clandestinamente com o auxílio de um elemento de bordo que distraiu o vigia do navio. 

Durante a minha prisão eles alegavam que tinha pertencido ao movimento livre de Moçambique e que só seria libertado depois de se apresentar... (indivíduo que não é identificado). Durante a minha permanência em Nachingueia estive junto com os tripulantes do "Angoche" de cor preta, e os tripulantes brancos também se encontravam no mesmo campo mas separados por arame farpado. Dois tripulantes não se encontravam nesse local. Segundo informações, eram o comandante e o imediato mas sem confirmação certa." 

Este depoimento dá-nos pelo menos uma certeza: a de que os tripulantes do "Angoche" não morreram conforme quiseram fazer crer. Muitas outras questões há, contudo, a referir, o que contamos fazer no nosso próximo número. 

H.G. 



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